
17.1.10
10.1.10
Fio de lua

Deixei uma barca à deriva e
Pendurei-me na lua, em corda bamba de abismo
E esperei pela maré alta que viria do teu luar
A noite era de prata, o mar era de sargaço
Só tu tardavas...
Por momentos quis cair na água
Mas a lua não me quis perder
E tu que tardavas.
E a barca das ilusões, aquela que vive perto da dos amantes,
cobriu-se de um pano branco, exangue, solene
à espera da tua chegada.
E tu que tardavas em vir,
descoberta pela noite fora, envolvida pela noite dentro,
sôfrega do tempo que, afinal, nunca te dei...
Já passavam das quatro.
Quase à beira das oito.
E, nesse instante, senti que te tinha perdido:
que a barca nunca iria se encher do teu riso,
que a lua nunca iria vibrar com o teu pranto,
que o fio nunca iria quebrar-se pelo meu peso.
Foi nessa altura, perto do amanhecer mais tardio que alguma vez conheci,
que me deixei cair,
à espera que a barca não me amparasse a queda,
à espera que a lua não se zangasse, afinal,
à espera que tu tardasses ainda mais até nunca mais...
Nessa hora, a nona daquela noite,
levantei a âncora da minha ira
E, em silêncio, rumei para sul,
sem esperar pela gaivota esfaimada que todas as manhãs por ali irrompia, sem piedade,
sem atender à dor que a ausência das tuas águas felizes me fazia sentir.
Se um dia passares por esse fuso horário,
por esse pedaço de mar,
e por essa réstia de lua,
não perguntes por mim -
não deixei endereço e parti para parte incerta.
Se a barca aí ainda estiver,
recolhe o pano,
procura a lágrima,
enrola o fio de prumo que a lua tem para te oferecer.
E vai
Vai e não voltes.
Que eu... já não sou deste mar.
5.1.10
A voz e as palavras
Tenho uma voz e revejo-me nas palavras, ditas e reditas por mim, através de mim e pelos outros.
Hoje apeteceu-me um pedaço de estrofe, um naco de poema vadio, uma fatia de romance de erva-doce ou de cordel.
Quero-me sensata, inquieta, imprevisível, desassossegada na minha habitual pacatez, metafórica, feita daquelas águas claras que irrompem das minhas almas, sem aviso, sem surpresa.
Leiam-me, Ouçam-me, decifrem-me, Soletrem-me....E ensinem-me as mágoas das flores, perto das magnólias que florescem antes de dar folha.
Não me atirem correntes mas antes gotas de chuva.
Quero a mansidão das manhãs de Outono, a fúria dos escorpiões, os risos surdos de Charlot, as garças dos vossos sorrisos...
As palavras, vagabundas e libertinas, trocam-me as mãos com o seu galope e afugentam os meus demónios. E correm, velozes, em busca do meu trote...Onde estás, cavalo meu?... à solta no meu peito, perto do canto mais estreito dos meus dedos, longe da esquina mais larga do meu espanto.
Quem te deu asas, quem te feriu de voz e pena, quem te trouxe encavalitado na minha dor, quem te fez meu, mesmo sem asas?
Queria escrever algo para espantar as tempestades
Deixem-me usar uma pena de outros tempos
Deixar recados por histórias antigas e dolentes e
Encontrar violinos debaixo das pedras da calçada...
A mão segue implacável, sem controlo, sem razão,
sem que eu a consiga deter.
Parem-na se quiserem.
Eu... nunca a deterei.
Por amor ao papel.
Ao branco grávido e vazio
Às linhas incontáveis dos meus cadernos da infância
Aos livros que li sem perceber
Às sebentas que preenchi com lenga-lengas
Por missão e
Por recato da minha imaginação.
Sou voz. E uso palavras.
E estou aqui a apresentar-me.
Obrigada por estares aí. Ainda. Obrigada por terem estado aí.....
enquanto cultivei A VOZ E AS PALAVRAS
29.12.09
São os acontecimentos e mais acontecimentos...Mas, ando por aí observando e ando por aí vivendo e vivendo, eu aconteço por aí!
Tenho observado o ser humano com mais atenção e com mais curiosidade. Afinal é mesmo curioso como é o "bicho-gente"... Se fere, regozija-se; se ferido ataca, se fere e é esquecido, ironiza...
Talvez seja a forma comum de todos lidarem com a dor. Algumas vezes aborreço-me, outras espanto-me, mas há também alturas em que me compadeço.
O ser humano é um campo vasto e com ele aprendo dia a dia o que não quero ser! Assumo que, por vezes, não digo o penso nem qual é a minha escolha, não posso dizer (com certeza) o que quero de futuro, além de um belo luar. Mas posso afirmar, convictamente, o que NÃO quero!!!
Acima de tudo, observo tentativas de acertar, coragem de superar limites e romper promessas pessoais, aproveitando as chances de felicidade. Abrir espaço na alma, na mente e no coração é, por vezes, assustador. Especialmente se essa alma, mente e coração já estão surrados pela vida...Mas é como sempre digo: Ser infeliz é bem fácil.
Bom mesmo é ter coragem para ir além de todos os medos e buscar possibilidades. De futuro pouco se sabe. O que podemos saber com certeza, é que para ter um amanhã feliz, precisamos começar a construi-lo hoje.
Eu, por minha vez, ando em boa fase. Estou mesmo feliz! Sempre fui de agradecer tudo o que me é ofertado pelos bons ventos Divinos. Portanto ando agradecendo: Os sorrisos singelos e as gargalhadas, os olhares tímidos e as frases desbocadas, as chances e as possibilidades, as incertezas e a coragem, as tentativas e os atrativos. Agradeço as perguntas e as resposta. Agradeço estar viva e estar contigo.
Bom ano para todos
Beijos na alma
24.12.09
O nosso natal

19.12.09
18.12.09
17.12.09

Hoje, enquanto rasgava papel atrás de papel pensava que o que vem da natureza à natureza deve ser devolvido...
Porque será que acumulo tanto papel? tanta revista? tanto jornal? será que Freud explicaria este fenómeno?
5.12.09
3.12.09
28.11.09
A letra fala de "desmatamento" sobre pesca e poluição.
"Earth Song" nunca foi lançada como single nos Estados Unidos, historicamente o maior poluidor do planeta. Por isso a maioria de nós nunca teve acesso a este vídeo. Ou seja, o que não passa nos EUA, não passa no resto do mundo.
Veja, então, o que os americanos nunca mostraram de Michael Jackson.
Filmado na África, Amazónia, Croácia e Nova York. Emocionante!
9.11.09
Nocturno

Todas as noites, antes de adormecermos, damos corda aos sonhos.
MJF
Dedicatória - M., a vida é feita de derrotas e glórias. A sua foi uma glória adiada, tão só... (sem credos ou cores, a não ser as das Amizade)
7.10.09
Temporal

Gosto de sentir a natureza e fingir
que não lhe pertenço.
A mão gigante do vento vai sacudindo o carro
contra o mar
com grandes chapadas brancas.
Não é o mundo que tenho na cabeça
as gotas de água que embaciam o vidro
e o véu da chuva o da noiva submissa.
As palavras não querem ser irmãs das ondas
e o meu silêncio não é filho
desta tempestade.
Mas como é belo
que tudo viva na luta de viver.
A fúria da maré no espelho do meu rosto
como um poema de Pedro Homem de Mello.
O som mais natural dá-me a nitidez dos choros suicidas
e transporta no tempo
esse luxo dos homens que se chama
esperança.
No céu baila e divaga mais uma gaivota.
No chão perto do mar
ooutro baile circunda o coração.
Mas nunca saberei como dançar...
Armando Silva Carvalho
6.10.09
A Argentina está de luto. Morreu Mercedes Sosa
La Negra", como ela era conhecida carinhosamente por seu cabelo escuro, foi apontada como "a voz da maioria silenciosa", por sua defesa dos pobres e sua luta pela liberdade.
Jovens artistas como Shakira e Ricky Martin manifestaram suas condolências através da rede social Twitter.
"Mercedes foi a maior voz e tinha um coração enorme", disse a cantora colombiana em sua página. Já o ex-Menudo afirmou: "Sua voz, sua música e sua paixão pela defesa dos direitos humanos inspirou a muitos. Seu legado viverá para sempre".
O Brasil começou a despertar para a riqueza da voz de Mercedes Sosa em 1976, após um dueto da cantora argentina com Milton Nascimento. A faixa "Volver a los 17", da compositora chilena Violeta Parra - de quem Mercedes foi uma das principais intérpretes - virou um dos maiores destaques do hoje clássico álbum "Geraes". A partir daí, a barreira da língua não mais impediu que brasileiros se apaixonassem pelo marcante timbre de contralto de Mercedes Sosa e por seu repertório, entre canções folclóricas e de conteúdo político e social.
Os discos de Mercedes passaram a ser lançados regularmente no Brasil. A cantora gravou novos encontros com artistas da MPB como Fagner, Chico Buarque e, recentemente, Caetano Veloso - em outubro de 2008, aproveitando a visita de Mercedes ao Rio, para receber a Ordem do Mérito Cultural, em cerimônia realizada no Teatro Municipal.
12.9.09
Encontro
Hesitámos por um momento
e pouco depois reconhecemos
que sofríamos da mesma doença.
Não existe definição
para esta maravilhosa tortura,
há quem lhe chame spleen
e quem fale em melancolia.
Mas se aceitamos o jogo
nas suas margens encontramos
um sinal inteligível
que pode dar sentido ao todo.
Eugenio Montale, "Poesia" (Diário Póstumo, 19696), tradução de José Manuel de Vasconcelos,
Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 2004
28.8.09

Fernando Pessoa.
24.8.09

15.8.09
13.8.09
10.8.09
9.8.09
4.8.09
3.8.09
Oração das mulheres resolvidas

Oração das Mulheres Resolvidas
Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo,
que a fonte nunca seque,
e que a nossa sogra nunca se chame Esperança,
porque Esperança é a última que morre...
Que os nossos homens nunca morram viúvos,
e que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas!
Que Deus abençoe os homens bonitos,
e os feios se tiver tempo...
Deus...
Eu vos peço sabedoria para entender um homem,
amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos,
porque Deus,
se eu pedir força,
eu bato-lhe até matá-lo.
Um brinde...
Aos que temos,
aos que tivemos e aos que teremos.
Um brinde também aos namorados que nos conquistaram,
aos trouxas que nos perderam,
e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!
Que sempre sobre,
que nunca nos falte,
e que a gente dê conta de todos!
Amén.
P.S.: Os homens são como um bom vinho: todos começam como uvas e é
dever da mulher pisá-los e
mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa companhia
para o jantar.
(Júlio Machado Vaz)
1.8.09
O melhor projecto do ano, para ver, ao vivo na 17ª Gala do Rádio Clube de leiria
12.7.09
4.7.09
27.6.09
13.6.09
4.6.09
Conseguiremos furtar-nos a tempo da ilusória mesquinhez dos valores insignificantes para podermos desfrutar a vida?

"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem.
Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete dechocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse.
Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas. Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida...Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes - te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.
Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam dese apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se. Sao tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo."
Gabriel Garcia Marquez
16.5.09
O meu jardim parece um laboratório de essencias para perfumes.
Como, por razões óbvias, não posso deixar-vos sentir o aroma,
aqui fica a sua definição no feminino e no masculino.
Definição feminina
Imaginem o aroma de um limão meio maduro meio verde,
com casca fina e rija. Mistura-se um pouco de aroma de pau de canela
trazida do oriente pelas primeiras naus portuguesas.
Estando a mistura neste ponto, junta-se um pouco de sal
e essência de homem quando a mulher o deseja.
Deixa-se ficar tomando o sol de uma tarde de fim de primavera, quando se instala a solidão.
E quando você desejar meter o nariz no meio das flores,
o perfume acontece.
Definição masculina
Imaginem o aroma de uma laranja verde com casca luzidia,
tão fina, como a pele de uma mulher jovem.
Misture o aroma de umas quantas bagas de vinha virgem,
um pouco de gelo e três gotas de Moscatel do Douro Superior.
Quando tiver imaginado este aroma,
junta-se um pouco do aroma de mel de urze selvagem.
Deixa-se ficar tomando o calor tórrido do primeiro beijo
entre um homem e uma mulher apaixonados.
Quando você desejar comer essas flores, o perfume está lá.
13.5.09
25.4.09
18.4.09
Em Pessoa

Bate roupa em pedra bem
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe,
Por isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela faz,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.
Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?
11.4.09
29.3.09
28.3.09
Não tenho para onde irpois amo este meu chão,vibro ao ouvir o meu Hino e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suorou enrolar o meu corpona pecaminosa manifestação de nacionalidade.Ao lado da vergonha de mim,tenho tanta pena de ti,povo deste mundo!'De tanto ver triunfar as nulidades,de tanto ver prosperar a desonra,de tanto ver crescer a injustiça,de tanto ver agigantarem-se os poderesnas mãos dos maus,o homem chega a desanimar da virtude,A rir-se da honra,a ter vergonha de ser honesto'.
27.3.09
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
"Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
e na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia."
25.3.09
Entre o Céu e a Terra há um espaço percorrido pelos seres humanos, nas distâncias que cavam entre si, inquietantes por vezes. Neste trilho, onde por vezes se estabelece vácuo , isolando como ilhas, aqueles que somos ditando presentes e futuros e jogando o valor real do sentido da vida.Nós que do nada inventamos tudo, corremos o risco, de acabar com tudo.
Cada vez mais distantes do Céu e afastadíssimos da Terra, flutuamos na ausência de sentido e divorciamo-nos da nossa própria interioridade.
Terra de ninguém, oca de poesia, de verdade e de sentido.
19.3.09
12.3.09

8.3.09
Os dias da Magnólia

7.3.09
3.3.09

28.2.09

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.
Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Corre-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.
27.2.09
26.2.09
13.2.09

25.1.09
Diz-me onde moras...
Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia! Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide. Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umas águas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço. Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada, Agualva-Cacém, Abuxarda, Alformelos, Murtosa, Angeja… ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola. Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. (...) Ao ler os nomes de alguns sítios – Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na CEE.
De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?
Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses. Imagine-se o impacte de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).
E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?", só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz).
É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro? Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda. Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso? Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma Vergadelas? É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra". Ninguém é do Porto ou de Lisboa.
Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir. Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do bairro). É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and GoAway...").
Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa. Verá que não é bem atendido. (...) Não há limites. Há até um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima.
Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros. Há que dar-lhes nomes
civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo Não Sei, A Mousse é Caseira, ou Vai Mais um Rissól.(...)
Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso
que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água
(Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do "Bogadouro"¹, (Amarante), depois de ter parado parafazer um chi-chi em Alça perna (Lousã).
¹ - Bogadouro é o Mogadouro quando se está constipado!!!
(Miguel Esteves Cardoso)
6.1.09
31.12.08
20.12.08

Para todos os que aqui vierem, votos de um Natal com a intensidade das coisas vivas e de um ano de 2009 com a força de todas as raízes.
Um abraço
7.12.08
As coisas simples

5.12.08
2.12.08
Do Poeta ao Poema

Octávio Paz
29.11.08
InCêndio que nos afoga

do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
JLP
22.11.08
Poema de uma tarde só

20.11.08

Os abraços... Ah! Como faltam os abraços, aqueles prolongados, inteiros, coração com coração, palpitações se misturando numa entrega de sentimentos, desejos, medos e sonhos...
Abraçar é se dar ao outro como um conforto, um alento, uma esperança. Abraços mudam a nossa vibração; são capazes de transformar uma vida toda de tristezas e abandonos.
18.11.08
E se Obama fosse africano?

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política...
5.11.08
God bless Black America

Disse ele ontem:
"Esta eleição contou com muitas histórias que se irão contar durante várias gerações. Mas aquela que eu hoje trago comigo é sobre uma mulher que depositou o seu voto em Atlanta. Ela é muito parecida com os milhões que aguardaram vez para que a sua voz fosse ouvida nesta eleição, à excepção de uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Ela nasceu apenas uma geração depois da escravatura; numa altura em que não havia carros nas estradas, nem aviões no céu; em que alguém como ela não podia votar por duas razões - porque ela era mulher e por causa da cor da sua pele.
E hoje, penso em tudo aquilo que ela viu ao longo do seu século de idade na América - as dores de cabeça e a esperança; a luta e o progresso; os tempos em que nos foi dito que não podíamos, e as pessoas que empurraram o credo adiante: "yes we can".
Quando havia desespero [...] e depressão em todo o país, ela viu uma nação conquistada pelo medo, com um New Deal, novos trabalhos, uma nova sensação de objectivo comum. 'Yes we can'".
Quando as bombas caíam no porto [Pearl Harbour] e a tirania ameaçou o mundo, ela era testemunha de uma geração que emergia à grandeza e de uma democracia era salva. 'Yes we can'".
Ela esteve lá para os autocarros em Montgomery, para as mangueiras em Birmingham, a ponte em Selma, e para um pregador de Atlanta que disse às pessoas que elas conseguiriam triunfar. 'Yes we can'".
Um homem tocou na lua, um muro caiu em Berlim, um mundo ficou ligado pela nossa ciência e imaginação, 'Yes we can'".
E este ano, nesta eleição, ela tocou com o dedo no ecrã e votou, porque ao fim de 106 anos de América, ao longo das melhores horas e das horas mais sombrias, ela sabe como a América pode mudar. 'Yes we can'".
América, fizémos um longo caminho. Vimos tanto. Mas ainda há tanta coisa a fazer. Por isso, esta noite, vamos perguntar a nós próprios - se as nossas crianças viveram para ver o próximo século; se as minhas filhas tiverem a sorte de viverem tanto como a Ann Nixon Cooper, que mudança é que vão ver? Que progresso teremos nós feito?".
Esta é a nossa oportunidade de responder a essa pergunta. Este é o nosso momento. Este é o nosso tempo".












