18.12.11



Há duas maneiras de viver a vida: Uma, como se nada fosse um milagre
Outra, como se tudo fosse um milagre.


Albert Einstein




17.12.11

Tive um sonho







Cesária....que saudades

Cantava como quem embala. Como se adormecesse um filho, como se tanto se lhe dá como se lhe deu. Saía-lhe de dentro aquela voz doce, melancólica, sem aprendizagem nem truques. Sodade marcou os meus programas de rádio diàriamente.E fiz dela a minha canção eleita, durante muito tempo. Visitei "S.Niclau" e deliciei-me em voos nocturnos de mornas cantadas de igual modo. É do povo, aquela serenidade. Aquele - só vou se me levarem ao colo - . Agora o colo dela é o colo que Deus decidiu dar-lhe. Eu, além da "sodade" fico também com: africa nossa - sangue de beirona - petit pays - cabo verde, ....entre tantas outras,........ Um beijo Cesária

1.12.11

luis Osório sobre Hermam José

Não deixa de ser curioso que nunca tenha falado de Herman José. Principalmente porque continuo a ter presente a primeira vez que o escutei.
Foi em sua casa, num prédio onde também morava o ainda não primeiro-ministro, José Sócrates. Duraram algumas horas as minhas perguntas e as suas respostas, horas em que me disse o que não esperava – acerca do pai e da adesão a Hitler, sobre um rapaz a quem trata como um filho ou do desencanto e da falta de paciência para aturar o mundo.

Afirmei-lhe no início o que ainda hoje penso: os que vão aparecendo fazem-nos ter saudades do velho e revolucionário Herman. Saudades que não são um exclusivo dos que o acompanharam ao longo dos últimos quase quarenta anos. Senti que também as tinha: «Devo a minha carreira à pequeneza de que somos feitos. A partir de determinada altura tinha um Rolls Royce, piscina, barco e era visita de casa de todos os poderosos. Não, Luís. Não me arrependo de, em alguns momentos, ter mergulhado no pântano em troca de dinheiro. Quando vemos uma grande senhora do teatro ou da música, com um vestido e jóias emprestadas, a agradecer a homenagem que lhe fizeram e a sair em braços como se fosse uma diva, julgamos que tem uma vida cómoda. Mas depois regressa ao seu apartamento suburbano e percebo que não faz sentido. Um professor universitário pode ter apenas um dois cavalos, alugar um apartamento em Queluz e ser muito feliz – a sua compensação interior é de tal forma que apenas precisa de um computador e das pessoas que gosta. Um artista, não. Vive deprimido e numa constante mentira».

Soube fugir disso. Só que a vida está longe de ser linear. O tempo gasta-se e o vazio é sempre um buraco, tantas e tantas vezes não sabemos como o travar. Nesse primeiro encontro poucos eram os que vaticinavam que alguém, como aconteceu depois com Ricardo Araújo Pereira, pudesse colocar em causa a sua popularidade. Mas o criador de Diácono Remédios e de tantos outros personagens sabia que o dia podia estar perto – chegara ao momento em que se fazem os balanços entre o deve e o haver, balanços em que se perguntou se devia fazer mais um personagem do Norte – «não, porque já fiz o Esteves e o senhor engenheiro»; ou criar um personagem original de mulher – «mas como, já inventei 18 mulheres»; ou um alentejano – «já fiz, já fiz»; e que tal compor e cantar novos temas – «já cantei em inglês, francês, alemão, português, espanhol»; então por que não tocar piano se tantos lhe gabavam o talento – «meu Deus, toquei piano toda a minha vida».

Fez, viu, conheceu. O drama de quem fica na história, num rodapé ou em capítulos inteiros, é o que fazer quando tudo parece já estar feito. Nos artistas, pelo menos nos que conheço, isso amplifica-se com o peso do espelho.

Muitos o dizem. Herman é um homem inteligente, rápido, culto. Também me pareceu, sim. Um actor que se foi habituando a uma máscara de solidão e glória; máscara que se transformou rapidamente na cara que passou a usar todos os dias. Solitário, claro, muito. A certa altura, beato de paternidade, perguntei-lhe pelos filhos que nunca teve e pelos vazios que nunca saberá que ficaram por preencher. O que me levaria a mim a uma afirmação tão absoluta, quis saber. Não que tivesse filhos biológicos, mas tinha alguém que o chamava de pai. Um rapaz, filho de um amor da juventude a quem, numa altura em que a relação entre os dois chegara ao fim, lhe pediu para a engravidar. Corriam os primeiros anos da década de 1980. Herman não aceitou. No entanto, sabemos que as mulheres são obstinadas e ela acabou por fazer o que planeara. Não com Herman, sim com um sueco que achou ser o mais parecido com o que conhecia do amor. Nasceu o rapaz e Herman José tornou-se pai honorário.

Impressionou-me a forma como falou do pai. Ouvi-lhe um telefonema em que, carinhoso e provocador, lhe pediu para ter cuidado com os cães quando saísse à rua porque o podiam confundir com um osso. Quando desligou o telefone virou-se para dentro de si e falou dele muito tempo ou, pelo menos, assim me pareceu. Falou como se estivessem em silêncio.

A ver se me lembro. Nascido em Ayamonte e filho de um alemão e de uma espanhola, chegou a Portugal aos dez anos para nunca mais sair. Entretanto Hitler subiu ao poder e aderiu ao nazismo com convicção e juventude, convicção que o levaria às fileiras do III Reich se não tivesse sido acometido de uma febre reumática que o retirou de combate. O seu irmão, e tio de Herman, não teve a mesma sorte e esteve preso num campo de concentração soviético.

Lembranças difíceis. Mais do que as memórias traumáticas em que Herman o acompanhava, em troca de 25 tostões, nas peregrinações ao Estádio de Alvalade: «Eram jogos atrás de jogos. Começávamos pelos infantis e íamos por aí fora. Um dia saímos de um jogo de manhã, como se fosse possível ver futebol com aquela luz da manhã a bater na cara, e fomos a uma fonte em frente ao Estádio. O pai lavava aí os vidros e os faróis. Ao mesmo tempo ouvíamos o relato de um jogo entre o Torreense e outra equipa qualquer. Estava cheio de fome e ansioso para voltar aos brinquedos, um verdadeiro trauma».

Contou-me a história do nazismo com a maior das naturalidades. Talvez não o conseguisse se estivesse no seu lugar. Passei a vê-lo com outros olhos – passei a vê-lo não apenas como a estrela desinteressante e gorda de ego, mas como um homem com a densidade de todos os que são verdadeiramente contraditórios. Talvez por isso o 25 de Abril transportou-o para territórios impensáveis: fez os coros do hino do Avante!, cantou o hino da Intersindical e foi um dos intérpretes do ‘Força, Companheiro Vasco’. As pessoas que cantavam e dançavam estavam no Partido Comunista e foi sempre entre os que se divertiam que desejou estar um dos mais talentosos entre os talentosos. «Tenho sempre enorme cuidado em satirizar os comunistas. Porque são os que têm menos em troca. Acho que quando brinco com eles sofrem mais do que os outros».

O 25 de Abril moldou Herman José. Assim como o PREC e as primeiras eleições livres. Mário Soares ganhou-as e escolheu para Ministro das Finanças um jovem meticuloso e incorruptível: Henrique Medina Carreira. Estive com ele esta semana, tomámos um café num centro comercial. Conto-lhe para a semana.

Tags: Ficheiros Secretos, Opinião, Luís Osório

4.11.11

Monólogo de uma mulher moderna

"São 5.30H da manhã, acordo e já não consigo dormir...
Estou acabada. Não quero ir trabalhar hoje.
Quero ficar em casa, a cozinhar, a ouvir música, a cantar, levar os cães a passear
pelos arredores. Tudo menos sair da cama, meter a primeira e ter de por o cérebro a funcionar.
Gostava de saber quem foi a besta da bruxa imbecil, a matriz das
feministas que teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher e
porque o fez connosco que nascemos depois dela?
Estava tudo tão bem no tempo das nossas avós, elas passavam o dia todo
a bordar, a trocar receitas com as suas amigas, a pintar,
ensinando-se mutuamente segredos de condimentos, truques, remédios
caseiros, lendo bons livros, decorando a casa, podando árvores,
plantando flores, recolhendo legumes das hortas e educando os filhos.
A vida era um grande curso de artesãos, medicinas alternativas e de
cozinha.
Depois ainda ficou melhor, tivemos os serviços, chegou o telefone, as
telenovelas, a pílula, o centro comercial, o cartão de credito , a
Internet! Que maravilha que seria ter a vidinha das nossas avós com a
tecnologia de hoje....upa upa...!
Quantas horas de paz a sós e de realização pessoal nos trouxe a tecnologia!
Até que veio uma tipa, que pelos vistos não gostava do corpinho que
tinha, para contaminar as outras rebeldes inconsequentes com ideias
raras sobre "vamos conquistar o nosso espaço" Que espaço?! Que caraças!
Se já tínhamos a casa inteira, o bairro era nosso, o mundo a nossos pés!!! Tínhamos o domínio completo dos nossos homens, eles dependiam de nós, para comer, vestirem-se , para terem sucesso e para parecerem bem à frente dos amigos. E agora? Onde é que eles estão??? Nosso
espaço???!!! Agora eles estão confundidos, não sabem que papel desempenham na sociedade, fogem de nós como o diabo da cruz. Essa piada..., acabou por encher-nos de deveres.

Antigamente os casamentos eram para sempre. Porquê? Digam-me porquê?
O sexo feminino, que tinha tudo do melhor que só necessitava de ser frágil e
deixar-se guiar pela vida começou a competir com os machos? Para eles
agora, uma relação são 15 minutos de sexo rápido e depois desaparecem durante duas semanas para verem futebol, beber cerveja e...trabalharem apenas para si.

A quem ocorreu tal ideia? Vejam o tamanhão dos bíceps deles e vejam o
tamanho dos nossos!
Estava muito claro que isso não ia terminar bem. Não aguento mais ser
obrigada ao ritual diário de ser magra como uma escova, mas com as
mamas e o rabo rijos, para o qual tenho que me matar no ginásio, ou de
juntar dinheiro para fazer uma mamoplastia, uma lipo, ou implantes nas
nádegas... Além de morrer de fome, pôr hidratantes, anti-rugas,
padecer do complexo do radiador velho a beber água a toda a hora e
acima de tudo ter armas para não cair vencida pela velhice,
maquilhar-me impecavelmente cada manhã desde a cara ao decote, ter o
cabelo impecável e não me atrasar com as madeixas, que os cabelos
brancos são pior que a lepra, escolher bem a roupa, os sapatos e os
acessórios, não vá não estar apresentável para a reunião do trabalho.

E não só, mas também ter que decidir que perfume combina com o meu
humor, ter de sair a correr para ficar engarrafada no transito e ter
que resolver metade das coisas pelo telemóvel, correr o risco de ser
assaltada ou de morrer numa investida de um autocarro ou de uma mota,
instalar-me todo o dia em frente ao PC, trabalhar como uma escrava,
moderna claro está, com um telefone ao ouvido a resolver problemas uns
atrás dos outros, que ainda por cima não são os meus problemas!!! Tudo
para sair com os olhos vermelhos - pelo monitor, porque para chorar de
amor não há tempo! ... e ainda ficamos agradecida quando entram em
nossa casa, sentam-se no sofá, vêm as notícias, contam-nos coisas
sobre os seus amigos, comem o nosso jantar, arrotam e vão embora.

A maior preocupação passara a ser essas piranhinhas de 18~20 anos que
não querem saber de emancipação, e que querem mesmo é um homem de 40
anos sossegado em casa que lhes dá tudo aquilo que nós rejeitamos.

Somos mesmo estúpidas. E olhem que tínhamos tudo resolvido, estamos a
pagar o preço por estar sempre em forma, sem estrias, depiladas,
sorridentes, perfumadas, unhas perfeitas, operadas, sem falar do
currículo impecável, cheio de diplomas, de doutoramentos e
especialidades, tornámo-nos super-mulheres mas continuamos a ganhar
menos que eles e de todos os modos são eles que nos dão ordens!!!!

Que desastre! Tão estúpidas que podíamos ser isto tudo com o homem a
trabalhar para nós. Basta!!! Quero alguém que me abra a porta para que
possa passar, que me puxe a cadeira quando me vou sentar, que mande
flores, cartinhas com poesias, que me faça serenatas à janela! Nós
sempre soubémos que tínhamos um cérebro e que o podíamos utilizar para
quê a estúpida mania de o demonstrar??

Ai meu Deus, são 6.10H, e tenho que levantar-me da cama... Que fria
está esta solitária e enorme cama! Ahhhh... Quero um maridinho que
chegue do trabalho, que se sente ao sofá e me diga: Meu amor não me
trazes um whisky por favor? ou: O que há para jantar? Porque descobri
que é muito melhor servir-lhe um jantar caseiro do que atragantar-me com uma sanduíche e uma Coca-Cola light enquanto termino o trabalho que trouxe para casa.
Pensam que estou a ironizar ou a exagerar? Não minhas queridas amigas, colegas inteligentes, realizadas liberais....e idiotas! Estou a falar muito seriamente:
"Abdico do meu posto de mulher moderna." Nós é que liberamos os homens
das suas obrigações.

E digo mais:
A maior prova da superioridade feminina era o facto de os homens
esfalfarem-se a trabalhar para sustentar a nossa vida boa!
Agora somos iguais a eles! Que merda...
Ai ai!!!

Que booooommmmmmmmmm............foi apenas um sonho........!
Agora passeio os cães e rebolo com eles na relva e sinto o cheiro da terra molhada.... TODOS OS DIAS, e não preciso da base nem do rímel nem dos saltos altos.

Agora posso brincar contigo Gonçalo.

1.11.11

Paternal

"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo".
 
José Saramago

4.10.11

3.10.11

"Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na Língua Portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: - não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos. Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hífenes e entraram RRR's que andavam errantes. É uma união de facto, e para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's passaram a ser gémeos, nenhum usa ( ^^^) chapéu. E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham. As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar. Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA ...? ! (...?)"

2.10.11

Ricardo Araújo no seu melhor!!!

Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que
não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A
questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles
caros. Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja.
Diz-se «Iqueia» ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA»?
Sãoambiguidades que me deixam indisposto. Não saber a pronúncia
correcta do nome da loja em que me encontro inquieta-me. E desconhecer
o género a que pertence gera em mim uma insegurança que me inferioriza
perante os funcionários. Receio que eles percebam, pelo meu
comportamento, que julgo estar no «I quê à», quando, para eles, é
evidente que estou na «Iqueia».
As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também
conceptuais. Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis
baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de
tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar,
depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É
uma espécie de Lego para adultos.
Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não
são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão,
portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros.
Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que combinava
bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu precisava e
que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos quilos.
Percebi melhor o nome do móvel. É preciso vir ao IKEA com uma besta
de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um dos
meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três
mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei
no ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias. É
claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é
melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a
floresta cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará
muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao
comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de
determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos
debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem
numa mesa-de-cabeceira engraçada. Por outro lado, há problemas de
solução difícil. Os móveis que comprei chegaram a casa em duas vezes.
A equipa que trouxe a primeira parte já não estava lá para montar a
segunda, e a equipa que trouxe a segunda recusou-se a mexer no
trabalho que tinha sido iniciado pela primeira. Resultado: o cliente
pagou dois transportes e duas montagens e ficou com um móvel
incompleto. Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. Mas
como sou eu, aborrece--me um bocadinho. Numa loja que vende tudo às
peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por
ser irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de
montagem. Idiossincrasias do comércio moderno.
Que fazer, então? Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é
este: para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e
junto um rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade
dos confetti num dia e a outra metade no outro. E os suecos que
montem tudo, se quiserem receber.

6.9.11

FAVORES EM CADEIA


Imaginem apenas.
Fazemos um favor a alguém que realmente a ajude e dizemos que não queremos que este seja retribuido a nós, mas sim a três outras pessoas que, em troca fazem o mesmo a outras três - e assim sucessivamente criando uma cadeia crescente de bondade e respeito. Impossível? Esta é uma palavra que não entra no vocabulário do pequeno estudante Trevor McKinney.
Haley Joel Osment (O Sexto Sentido) desempenha o papel de Trevor, que desencadeia uma reacção em cadeia de bondade para o seu projecto escolar de estudos sociais nesta história carinhosa e comovente dirigida por Mimi Leder (Impacto Profundo) e baseada na obra de Catherine Ryan Hyde e também protagonizada pelos vencedores de um Oscar da Academia Kevin Spacey e Helen Hunt. Qual será o impacto que uma ideia tão pura e sincera pode ter? Faça um favor a si próprio e descubra: veja Favores em Cadeia, um dos mais belos filmes dos últimos tempos.

Um filme que muda a nossa visão do mundo, ao ajudar-nos a recordar a sabedoria da nossa criança interior – ver o mundo através do olhar da criança é actualizar a esperança em momentos de dúvida ou desalento. È desimpedir as vias para a livre circulação da solidariedade e da compaixão. É recuperar a fé na magnificência do ser humano, quando ele se ilumina para o melhor em si. Faça um favor e se ainda não viu o filme veja-o.

8.6.11

INÊS - 16 ANOS


O tempo passou tão rápido. É difícil acreditar que já estejas uma mulherzinha.
Inteligente, boa aluna, boas notas.......e fanática por passeios, como a mãe! Fico feliz quando te respiro, quando te abraço, quando cheiro o teu cabelo sempre sedoso e lavado.
Parabéns minha querida
Só desejo que o teu futuro seja maravilhoso!
Amo-te muito minha querida
vómila

20.5.11

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
...De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

18.5.11

Opinião de um homem sobre o corpo feminino!


Não importa o quanto pesa. É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher. Saber seu peso não nos proporciona nenhuma emoção.

Não temos a menor idéia de qual seja seu manequim. Nossa avaliação é visual, isso quer dizer, se tem forma de guitarra... está bem. Não nos importa quanto medem em centímetros - é uma questão de proporções, não de medidas.

As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheinhas, femininas.... Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fração de segundo. As magrinhas que desfilam nas passarelas, seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem, são todos gays e odeiam as mulheres e com elas competem. Suas modas são retas e sem formas e agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los.

Não há beleza mais irresistível na mulher do que a
feminilidade e a doçura. A elegância e o bom trato, são equivalentes a mil viagras.

A maquiagem foi inventada para que as mulheres a usem. Usem! Para andar de cara lavada, basta a nossa. Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.

As saias foram inventadas para mostrar suas magníficas pernas.. Porque razão as cobrem com calças longas? Para que as confundam conosco? Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras e pronto. Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão e eu
reitero: nós gostamos assim. Ocultar essas formas, é como ter o melhor sofá embalado no sótão.

É essa a lei da natureza... que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréxica, bulêmica e nervosa logo procura uma amante cheinha, simpática, tranqüila e cheia de saúde.

Entendam de uma vez! Tratem de agradar a nós e não a vocês. porque, nunca terão uma referência objetiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher. Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com sinceridade, que outra mulher é linda.

As jovens são lindas... mas as de 40 para cima, são verdadeiros pratos fortes. Por tantas delas somos capazes de atravessar o atlântico a nado. O corpo muda... cresce. Não podem pensar, sem ficarem psicóticas que podem entrar no mesmo vestido que
usavam aos 18. Entretanto uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento ou está se auto-destruindo.

Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir sua vida com equilíbrio e sabem controlar sua natural tendência a culpas. Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade (a dieta virá em setembro, não antes; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade (não se saboteia e não sofre); quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.



Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tira a beleza. São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não tiveram anos 'em formol' nem em spa... viveram! O corpo da mulher é a prova de que Deus existe. É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, ninados e nós, sem querer, as enchemos de estrias, de cesárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.
Cuidem-no! Cuidem-se! Amem-se!

A beleza é tudo isto.

Paulo Coelho
Explodiu a granada.
Inquietaram-se os ventos.
Eclodiu uma perigosa e dantesca tempestade.
Mas caiu o pano, nessa mesma noite em que se tinha erguido.
Ruiu a murada. Nesse mesmo estado de espírito em que se tinha erigido.
...Soltaram-se as pétalas do napalm, daquela fecunda flor que ninguém plantou.
Desistiram os heróis bélicos da paz de todos os dias.
Tudo sucumbia, sem saber como, sem saber porquê.
Até as preces dos hereges mais crédulos pareciam já não afectar ninguém...
Amigos insensatos, para onde vai a vossa saudade?
Tendes receio da musa que vai inspirando os vossos pensamentos?
Como podeis evitar que os pássaros voem em redor dos vossos vazios?
Nada sabeis, nem o pouco que pensais saber,
Nada pensais, nem o muito que sabeis pensar.
Para onde convergem os gritos satânicos de Armagédon?
Para onde vindes, a que vindes, como vindes?
Como ousais tudo isto saber se viver passa a ser proibido?
Como quereis subir mais alto se, a partir de hoje,
e na força indómita do pai que abraçava, sem o saber, o filho já morto,
andam gnomos equivocados a apagar os degraus da grande escadaria?
Oh respeitáveis inimigos íntimos, para quê a cólera
Se nem tempo ides ter para levantar uma mão que seja?
Calaram-se os actores, os autores dos dias e de parte das noites e os adereços.
Em nome de uma nova geração de eleitos,
foi suprimida a bonança em todos os lares, em todas as camas, em todas as lamas.
Aí passou a pensar-se que, afinal, tudo é impossível!
Cegou o incauto poeta. No mesmo dia em que tudo parecia ter visto.
Endoideceu o são Arlequim. No mesmo dia em que tirara a máscara e se vestira de vulgar veneziano.
Adormeceu o Vigilante. No dia em que os homens olharam para dentro de si...
(...)
Deus olhou para a sua obra e suspirou.
Viu o novo tempo.
Difícil.
Turbulento.
Opaco.
Mas não me parece que tenha existido algum momento da nossa história em que Deus se tivesse sentido realmente à vontade!

Paulo Guerra

11.4.11

Monólogo de uma mulher moderna:

"São 5.30H da manhã, o despertador não pára de tocar e não tenho
forças nem para atirá-lo contra a parede. Estou acabada. Não quero ir
trabalhar hoje.
Quero ficar em casa, a cozinhar, a ouvir música, a cantar, etc. Se
tivesse um cão levava-o a passear nos arredores. Tudo menos sair da
cama, meter a primeira e ter de por o cérebro a funcionar.
Gostava de saber quem foi a besta da bruxa imbecil, a matriz das
feministas que teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher e
porque o fez connosco que nascemos depois dela?
Estava tudo tão bem no tempo das nossas avós, elas passavam o dia todo
a bordar, a trocar receitas com as suas amigas, a pintar,
ensinando-se mutuamente segredos de condimentos, truques, remédios
caseiros, lendo bons livros, decorando a casa, podando árvores,
plantando flores, recolhendo legumes das hortas e educando os filhos.
A vida era um grande curso de artesãos, medicinas alternativas e de
cozinha.
Depois ainda ficou melhor, tivemos os serviços, chegou o telefone, as
telenovelas, a pílula, o centro comercial, o cartão de credito , a
Internet! Que maravilha que seria ter a vidinha das nossas avós com a
tecnologia de hoje.
Quantas horas de paz a sós e de realização pessoal nos trouxe a tecnologia!
Até que veio uma tipa, que pelos vistos não gostava do corpinho que
tinha, para contaminar as outras rebeldes inconsequentes com ideias
raras sobre "vamos conquistar o nosso espaço" Que espaço?! Que
caraças!
Se já tínhamos a casa inteira, o bairro era nosso, o mundo a nossos
pés!!! Tínhamos o domínio completo dos nossos homens, eles dependiam
de nós, para comer, vestirem-se, para terem sucesso e para parecerem
bem à frente dos amigos e agora? Onde é que eles estão??? Nosso
espaço???!!! Agora eles estão confundidos, não sabem que papel
desempenham na sociedade, fogem de nós como o diabo da cruz. Essa
piada..., acabou por encher-nos de deveres.
E o pior de tudo acabou lançando-nos no calabouço da solteiricecrónica aguda!!!!
Antigamente os casamentos eram para sempre. Porquê? Digam me porquê,
um sexo que tinha tudo do melhor que só necessitava de ser frágil e
deixar-se guiar pela vida começou a competir com os machos? Para eles
agora, uma relação agora são 15 minutos de sexo rápido e depois
desaparecem durante duas semanas para verem futebol, beber cerveja e
...trabalharem apenas para si.
A quem ocorreu tal ideia? Vejam o tamanhão dos bíceps deles e vejam o
tamanho dos nossos!
Estava muito claro que isso não ia terminar bem. Não aguento mais ser
obrigada ao ritual diário de ser magra como uma escova, mas com as
mamas e o rabo rijos, para o qual tenho que me matar no ginásio, ou de
juntar dinheiro para fazer uma mamoplastia, uma lipo, ou implantes nas
nádegas... Além de morrer de fome, pôr hidratantes, anti-rugas,
padecer do complexo do radiador velho a beber água a toda a hora e
acima de tudo ter armas para não cair vencida pela velhice,
maquilhar-me impecavelmente cada manhã desde a cara ao decote, ter o
cabelo impecável e não me atrasar com as madeixas, que os cabelos
brancos são pior que a lepra, escolher bem a roupa, os sapatos e os
acessórios, não vá não estar apresentável para a reunião do trabalho.
E não só, mas também ter que decidir que perfume combina com o meu
humor, ter de sair a correr para ficar engarrafada no transito e ter
que resolver metade das coisas pelo telemóvel, correr o risco de ser
assaltada ou de morrer numa investida de um autocarro ou de uma mota,
instalar-me todo o dia em frente ao PC, trabalhar como uma escrava,
moderna claro está, com um telefone ao ouvido a resolver problemas uns
atrás dos outros, que ainda por cima não são os meus problemas!!! Tudo
para sair com os olhos vermelhos - pelo monitor, porque para chorar de
amor não há tempo! ... e ainda ficamos agradecida quando nos entram em
nossa casa, sentam-se no sofá, vêm as notícias, contam-nos coisas
sobre os seus amigos, comem o nosso janta, arrotam e vão embora. A
maior preocupação passaram a ser essas piranhinhas de 18~20 anos que
não querem saber de emancipação, e que querem mesmo é um homem de 40
anos sossegado em casa que lhes dá tudo aquilo que nós rejeitamos.
Somos mesmo estúpidas. E olhem que tínhamos tudo resolvido, estamos a
pagar o preço por estar sempre em forma, sem estrias, depiladas,
sorridentes, perfumadas, unhas perfeitas, operadas, sem falar do
currículo impecável, cheio de diplomas, de doutoramentos e
especialidades, tornámo-nos super-mulheres mas continuamos a ganhar
menos que eles e de todos os modos são eles que nos dão ordens!!!!
Que desastre! Tão estúpidas que podíamos ser isto tudo com o homem a
trabalhar para nós. Basta!!! Quero alguém que me abra a porta para que
possa passar, que me puxe a cadeira quando me vou sentar, que mande
flores, cartinhas com poesias, que me faça serenatas à janela! Nós
sempre soubemos que tínhamos um cérebro e que o podíamos utilizar para
quê a estúpida mania de o demonstrar??
Ai meu Deus, são 6.10H, e tenho que levantar-me da cama... Que fria
está esta solitária e enorme cama! Ahhhh... Quero um maridinho que
chegue do trabalho, que se sente ao sofá e me diga: Meu amor não me
trazes um whisky por favor? ou: O que há para jantar? Porque descobri
que é muito melhor servir-lhe um jantar caseiro do que
atragantar-me com uma sanduíche e uma Coca-Cola light enquanto termino
o trabalho que trouxe para casa. Pensas que estou a ironizar ou a
exagerar? Não minhas queridas amigas, colegas inteligentes, realizadas
liberais....e idiotas! Estou a falar muito seriamente:
"Abdico do meu posto de mulher moderna." Nós é que liberamos os homens
das suas obrigações.
E digo mais:
A maior prova da superioridade feminina era o facto de os homens
esfalfarem-se a trabalhar para sustentar a nossa vida boa!
Agora somos iguais a eles! Que merda...
Ai ai!!!

1.3.11

parece que foi escrito hoje...
.
'As Farpas' de Eça de Queirós

133 anos depois........


«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.

Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos.

A prática da vida tem por única direcção a conveniência.

Não há princípio que não seja desmentido.

Não há instituição que não seja escarnecida.

Ninguém se respeita.

Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.

Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.

Alguns agiotas felizes exploram.

A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.

O povo está na miséria.

Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.

O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.

Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»


Isto foi escrito em 1871, por Eça de Queirós, no primeiro número de "As Farpas"

24.2.11

UM PAÍS INSUPORTÁVEL

Este artigo insere-se no conjunto de matérias
que, por princípio, não difundo.
Mas o caso é tão chocante e tão grave,
que vos envio para reflexão
sobre a sociedade em que vivemos.

Eu chamo a isto "indiferença soberana"...um sinal dos tempos.







A falta de bom-senso e humildade constitui uma das principais causas da degenerescência da justiça portuguesa. Tudo seria simples se houvesse uma coisa que falta cada vez mais aos nossos magistrados: bom senso.


Uma mulher com 88 anos de idade morreu no seu apartamento em Rio de Mouro, Sintra, mas o corpo só foi encontrado mais de oito anos depois, juntamente com os restos mortais de alguns animais de companhia (um cão e dois pássaros).


Este caso, cujos pormenores têm sido abundantemente relatados na comunicação social, interpela-nos a todos não só pela sua desumanidade mas também pela chocante contradição entre os discursos públicos dominantes e a dura realidade da nossa vida social. Contradição entre promessas e garantias de bem-estar, de solidariedade e de confiança nas instituições públicas e uma realidade feita de solidão, de abandono e de impessoalidade nas relações das instituições com os cidadãos.


Apenas duas ou três pessoas se interessaram pelo desaparecimento daquela mulher, fazendo, aliás, o que lhes competia. Com efeito, uma vizinha e um familiar comunicaram o desaparecimento às autoridades policiais e judiciais mas ninguém na PSP, na GNR, na Polícia Judiciária e no tribunal de Sintra se incomodou o suficiente para ordenar as providências adequadas. Em face da participação do desaparecimento de uma idosa a diligência mais elementar que se impunha era ir à sua residência habitual recolher todos os indícios sobre o seu desaparecimento. É isto que num sistema judicial de um país minimamente civilizado se espera das autoridades policiais e judiciais, até porque o caso era susceptível de constituir um crime. O assalto e até assassínio de idosos nas suas residências não são, infelizmente, casos assim tão raros em Portugal. Mas, sintomaticamente, as autoridades judiciais não só não se deram ao trabalho de se deslocar à residência como, inclusivamente, recusaram-se a autorizar os familiares a procederem ao arrombamento da porta de entrada.


E tudo seria tão simples se houvesse uma coisa que falta cada vez mais aos nossos magistrados: bom senso. Mas não. Dava muito trabalho ir à uma residência procurar pistas sobre o desaparecimento de uma pessoa. Dava muito trabalho oficiar outras instituições para prestar informações sobre esse desaparecimento. Sublinhe-se que um primo da idosa se deslocou treze vezes ao tribunal de Sintra para que este autorizasse o arrombamento da porta da sua residência. Mas, em vez disso, o tribunal, lá do alto da sua soberba, decretou que a desaparecida não estava morta em casa, pois, se estivesse, teria provocado mau cheiro no prédio. É esta falta de bom-senso e humildade perante a realidade que constitui uma das principais causas da degenerescência da justiça portuguesa. Os nossos investigadores (magistrados e polícias) não investigam para encontrar a verdade, mas sim para confirmarem as verdades que previamente decretam. E, como algumas dessas verdades são axiomáticas, não carecem de demonstração.


Mas há mais entidades cujo comportamento revela que a pessoa humana não constitui motivo suficientemente forte para as obrigar a alterar as rotinas burocráticas e impessoais.


A luz da cozinha daquele apartamento esteve permanentemente acesa durante um ano, ao fim do qual a EDP cortou o fornecimento de energia eléctrica, sem se interessar em averiguar o motivo pelo qual um consumidor deixou de cumprir o contrato celebrado entre ambos.


Os vales da pensão de reforma deixaram de ser levantados pela destinatária, mas a segurança social nada se preocupou com isso. Ninguém nessa instituição estranhou que a pensão de reforma deixasse de ser recebida, ou seja, que passasse a haver uma receita extraordinária sem uma causa. E isto é tanto mais insólito quanto os reformados são periodicamente obrigados a fazerem prova de vida. Mas isso é só quando estão vivos e recebem a pensão.


Os CTT atulharam a caixa de correio daquela habitação de correspondência que não era recebida sem que nenhum alerta alterasse as suas rotinas.


Finalmente, as finanças penhoraram uma casa e venderam-na sem que o respectivo proprietário fosse citado. Como é que é possível num país civilizado penhorar e vender a habitação de uma pessoa, aliás, por uma dívida insignificante, sem que essa pessoa seja citada para contestar? Sem que ninguém se certifique de que o visado tomou conhecimento desse processo? Como é possível comprar uma casa sem a avaliar, sem sequer a ver por dentro? Quem avaliou a casa? Quem fixou o seu preço?


Claro que agora aparecem todos a dizer que cumpriram a lei e, portanto, ninguém poderá ser responsabilizado porque a culpa, na nossa justiça, é sempre das leis. É esta generalizada irresponsabilidade (ninguém responde por nada) que está a tornar este país cada vez mais insuportável.

16.2.11

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'

14.2.11

Billy Elliot


Voando num lago de cisnes,
o alado Rodolfo deixou o suor na margens do Limbo
E beijou Giselle no templo das nuvens

Pas de deux a solo
rodopiou freneticamente (como se não houvesse amanhã),
tropeçou em Prokofiev e
incendiou as convenções...

Finda a função,
ele fez a usual vénia:
Billy Elliot tirou os sapatos vermelhos,
abriu as asas e voou...

28.1.11

Duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez humana
(Albert Einstein)

3.1.11

Meus queridos amigos,

Amanhã estaremos no último dia do ano de 2010... e depois da meia-noite, virá o Ano Novo...
O engraçado é que - teoricamente - continua tudo igual...
Ainda seremos os mesmos.
Ainda teremos os mesmos amigos.
Alguns o mesmo emprego.
O mesmo parceiro(a).
As mesmas dívidas (emocionais e/ou financeiras).
Ainda seremos fruto das escolhas que fizemos durante a vida.
Ainda seremos as mesmas pessoas que fomos este ano...
A diferença, é que quando o relógio nos avisar que é meia-noite, do dia 31 de dezembro de 2010, teremos um ano IN-TEI-RI-NHO pela frente!

Um ano novinho em folha! Como uma página de papel em branco, esperando pelo que iremos escrever.
Um ano para começarmos o que não tivemos vontade, coragem ou fé...
Um ano para perdoarmos um erro, um ano para sermos perdoados pelos nossos erros
365 dias para fazermos o que quisermos... há sempre uma escolha...
E, exactamente por isso, que eu desejo que vocês façam as melhores escolhas que puderem.
Desejo que sorriam o máximo que puderem.
Cantem a música que quiserem.
Beijem muito.
Amem ainda mais.
Abracem bem .Curtam muito a vossa família.
Durmam com os anjos.
Sejam protegidos por eles.
Agradeçam por estarem vivos e terem sempre mais uma hipótese para recomeçar.
Agradeçam as vossas escolhas, pois certas ou erradas, elas são vossas.
E ninguém pode ou deve questioná-las.
Quero agradecer aos amigos que tenho.
Aos que me 'acompanham' desde há muito tempo.
Aos que eu fiz este ano.
Aos que eu escrevo pouco, mas lembro muito.
Aos que eu escrevo muito e falo pouco.
Aos que moram longe e não vejo tanto quanto gostaria.

Aos que passaram pela minha vida e a marcaram de uma ou outra forma.

Aos que chegaram à minha vida e por cá ficaram numa entreajuda de evolução constante



Aos que vão passar na minha vida e aos que nela vão ficar.
Aos que moram perto e eu vejo sempre.
Aos que me 'seguram', quando penso que vou cair.
Aos que eu dou a mão, quando me pedem ou quando me parecem um pouco perdidos.
Aos que ganham e perdem.
Aos que me parecem fortes e aos que realmente são.
Aos que me parecem anjos, mas estão aqui e dão-me a certeza de que este mundo é mesmo divino.

Espero que 2011 seja um ano bem mais feliz, amoroso e próspero para todos vós!



Obrigado por fazerem parte da minha história !



Gorette Gaio