4.10.11

3.10.11

"Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na Língua Portuguesa. Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: - não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos. Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hífenes e entraram RRR's que andavam errantes. É uma união de facto, e para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's passaram a ser gémeos, nenhum usa ( ^^^) chapéu. E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham. As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar. Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA ...? ! (...?)"

2.10.11

Ricardo Araújo no seu melhor!!!

Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que
não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A
questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles
caros. Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja.
Diz-se «Iqueia» ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA»?
Sãoambiguidades que me deixam indisposto. Não saber a pronúncia
correcta do nome da loja em que me encontro inquieta-me. E desconhecer
o género a que pertence gera em mim uma insegurança que me inferioriza
perante os funcionários. Receio que eles percebam, pelo meu
comportamento, que julgo estar no «I quê à», quando, para eles, é
evidente que estou na «Iqueia».
As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também
conceptuais. Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis
baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de
tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar,
depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É
uma espécie de Lego para adultos.
Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não
são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão,
portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros.
Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que combinava
bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu precisava e
que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos quilos.
Percebi melhor o nome do móvel. É preciso vir ao IKEA com uma besta
de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um dos
meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três
mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei
no ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias. É
claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é
melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a
floresta cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará
muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao
comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de
determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos
debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem
numa mesa-de-cabeceira engraçada. Por outro lado, há problemas de
solução difícil. Os móveis que comprei chegaram a casa em duas vezes.
A equipa que trouxe a primeira parte já não estava lá para montar a
segunda, e a equipa que trouxe a segunda recusou-se a mexer no
trabalho que tinha sido iniciado pela primeira. Resultado: o cliente
pagou dois transportes e duas montagens e ficou com um móvel
incompleto. Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. Mas
como sou eu, aborrece--me um bocadinho. Numa loja que vende tudo às
peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por
ser irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de
montagem. Idiossincrasias do comércio moderno.
Que fazer, então? Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é
este: para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e
junto um rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade
dos confetti num dia e a outra metade no outro. E os suecos que
montem tudo, se quiserem receber.